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Era fim de tarde eu ainda estava no escritório. Uma conversa informal com o meu chefe tinha-se prolongado um pouco mais e faltava-me copiar um ficheiro do servidor para o meu disco portátil, antes de ir para casa. Já há alguns dias que o governo libanês pedia aos seus cidadãos para ficarem em casa (o famoso “lockdown”), devido ao elevado número de novos contágios de COVID-19 no país.

Alguns jovens da Middle East University, a universidade Adventista no Médio Oriente, estavam a arranjar a canalização do prédio onde trabalho, que é também a sede da Igreja Adventista para o Médio Oriente e Norte de África. Já os tinha visto, da minha janela, a revirar a relva do pequeno jardim da propriedade. 

Foi então que o prédio começou a tremer, às 18:00. O meu primeiro pensamento foi: “O que é que os rapazes estão a fazer à canalização?” Fui à janela e vi um deles a correr para o portão... Ouvi um estrondo, vindo do mar, e senti uma pressão que me empurrou em direção à minha mesa, abanando toda a estrutura do prédio.

“Foi uma bomba! E aqui bem perto”, pensei. Coloquei o computador e o disco na mochila e saí do prédio o mais rápido que pude. 

Encontrando colegas a fazer o mesmo, subimos pelo portão da Universidade para o prédio do Dormitório Feminino, onde alunos e outros colegas aguardavam, ainda em choque, notícias mais concretas.

Ao relembrar o momento da explosão, consigo entender melhor quem sobrevive a guerras. O instinto de sobrevivência, a adrenalina, a rapidez de pensamentos, o medo de que aconteça outra vez… A tentativa mental de fazer sentido do que se passa à volta. A necessidade de entender o acontecido para se decidir os próximos passos.

Levou uns 15 minutos para ficarmos a saber que a explosão se tinha dado no porto de Beirute, a 6km do campus Adventista; mais ou menos o mesmo tempo que levou para o meu coração voltar a bater normalmente. Inicialmente, não havia noção do tamanho da destruição. Como a possibilidade de que a explosão fosse causada por um ataque bélico era ainda plausível, dirigi-me ao prédio onde se encontra o único abrigo anti bomba do campus. Acabei por ficar na casa de amigos, naquele mesmo prédio, para acompanhar as notícias que iam, aos poucos, revelando mais dos acontecimentos à volta da Explosão de Beirute, como ficou conhecida esta gigantesca explosão, das maiores não atómica da História.

As horas e dias seguintes foram de avaliação dos danos aos prédios das instituições Adventistas, de limpezas exaustivas e de muita gratidão a Deus por nenhum membro da comunidade ter perdido a vida ou sequer sofrido ferimentos graves. Muitas janelas estouradas, portas partidas, vidros por todo o lado… Mas todos ilesos. História atrás de história, fui ouvindo dos amigos e membros de igreja como interrupções nas suas rotinas tinham evitado que estivessem perto das janelas ou portas que não resistiram ao impacto da explosão… E o sentimento de gratidão pelo cuidado de Deus era comum a todos.

No entanto, as perdas incalculáveis que a cidade de Beirute, e mais de 300 mil dos seus habitantes viveram nos últimos dias, pesa no coração de todos nós. É difícil trabalhar, pensar, em qualquer outra coisa agora. O som dos vidros partidos a serem limpos, o sangue nas portas, as pessoas agradecidas, jovens e velhos, estrangeiros e libaneses, todos juntos, a ajudar… Não importa se é um bar, uma casa, um restaurante, um escritório… Não importa se pertencia a um libanês, argelino ou sírio: todos juntos, limpámos. 

Destes sons e imagens, nunca vou me esquecer. Mais do que a chocante imagem da explosão, muito televisionada, ficará para sempre na minha memória o sorriso cansado e as palavras simples da jovem fotógrafa libanesa, depois de perguntar de onde éramos: “Obrigada por estarem aqui. Obrigada por nos ajudarem.”

A vida continua e reconstruir é preciso. É assim que se honra as vítimas. É assim que se mostra o que há de melhor na humanidade: vislumbres do coração do Criador, que, num momento de grande necessidade, se doou, em amor de autossacrifício. E nos convida a ser, hoje em dia, como Ele é.

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A Igreja Adventista do Sétimo Dia em Beirute participa dos esforços para aliviar o sofrimento em sequência da Explosão de Beirute através da ADRA Líbano, uma organização não-governamental com décadas de presença no Médio Oriente e em mais de 118 países no mundo. Se tem interesse em ajudar, faça o seu donativo através do site: https://adra.org (Emergency Fund)

https://adra.org/beirut-explosion-adra-disaster-response-teams-step-up-emergency-assistance-to-help-first-responders-and-survivors?fbclid=IwAR1po_RevcQvvjIlsfFkAza09uvG7aSbiUbMWUuTRof3lLumE2TkPmw3JIo

Também decorrem outras iniciativas locais de limpeza, de alimentação a famílias necessitadas, e de apoio às escolas Adventistas, que sofreram danos materiais consideráveis. Aceda a mais informações nas seguintes páginas de internet:

Middle East North Africa Union

https://www.facebook.com/menaunion

University Church of SDA - MEU

https://www.facebook.com/universitychurchlebanon

ADRA Europe

https://www.facebook.com/ADRAEurope/

Impact for Lebanon - Adventist Schools

https://www.gofundme.com/f/Impact-for-Lebanon?utm_source=customer&utm_campaign=m_pd+share-sheet&utm_medium=copy_link

Sons e Imagens Inesquecíveis | Como eu vivi a Explosão de Beirute, por Marisa Ferreira